O Perfil do Novo Médico

O Perfil do Novo Médico

Carlos Antonio Madalosso

Desde Hipócrates, quando a Medicina foi comparada à Filosofia, nossa profissão tem sido uma atividade superlativa. O acesso à Faculdade é o mais difícil, o curso é o mais extenso - um médico após 2 anos de residência cumpriu 9600 horas de aula enquanto uma enfermeira apenas 3000 horas -; o aluno de medicina é o mais exigido e  é o curso mais dispendioso curso universitário.

Uma vez formado, o médico terá uma profissão que lhe exige mais dedicação em tempo e estudo, sendo também, mais gratificante, mais reconhecida pela população e,  na média, a  mais remunerada.

Esta é uma tônica de toda a história da medicina, exceto alguns períodos em que o médico foi maltratado. Na Roma Antiga, muitos médicos eram escravos. Na China de Mao, médicos de pés descalços eram mal formados, incultos, mal remunerados e mal aceitos  pela população pelo seu péssimo desempenho decorrente da má formação.

Na Rússia Comunista e em Cuba, atualmente, formam-se médicos em quantidade com o objetivo de desvalorizar o profissional que, por ser abundante será barato. Um médico em Cuba ganha em média 30 dólares por mês. As médicas desempregadas buscam na prostituição forma de sobrevivência.

No Brasil até há 20 anos, os médicos eram respeitados e admirados, e confesso, somente vi um caso de agressão física a um colega anestesista. Há algum tempo  uma campanha de desvalorização dos médicos tem sido arquitetada. Os governos pagam-lhes aviltantes honorários. Os governantes  que elegeram-se fazendo campanha pelo respeito aos direitos trabalhistas ,  deixam os médicos sem qualquer vínculo institucional e sem direitos sociais. Atiram aos hospitais essas obrigações, gerando em muitos locais confronto com os médicos e criando ambiente ruim para ambas as partes.  Com o  mesmo intuito, criam-se novas faculdades a roldão bem como exigem das  existentes, considerável aumento de  vagas. Colocam  nas costas dos médicos as grandes deficiências dos SUS.

Atiçam a mídia contra nós para, ostensivamente, denunciar médicos pelo não cumprimento de horário e, eventuais, falhas dos mesmos. Em contrapartida fecham os olhos para a corrupção e grandes desvios de verbas da saúde pelos seus correligionários.  

Nos últimos tempos, com a chegada de um número cada vez maior, os médicos têm perdido clientes e receitas em seus consultórios. Há necessidade que tomemos algumas medidas a fim de que mantenhamos nossas rendas estáveis ou crescentes.

Os pacientes tornaram-se mais cultos e exigentes e, portanto, reivindicadores. Nenhum paciente procura o médico para brigar com ele. O paciente somente se queixa e fala mal quando descontente. Contente, torna-se um grande propagandista do “seu médico”.

Para conhecer o Perfil do Novo Médico, estudiosos tem feito pesquisas, ouvindo pacientes, médicos e seus colegas. Destaco o trabalho do Dr. Raimundo Pinheiro, Gastroenterologista de Salvador, que após estudo apurado chegou a um perfil e  enumerou 10  mandamentos para sua obtenção. A seguir os citarei, com as devidas adequações para os médicos de nossa Região:

  1. Ter facilidade de comunicação com as pessoas. As palavras muito técnicas e sofisticadas não conferem ao médico qualquer vantagem enquanto o falar simples, na linguagem do doente, cria empatia com o mesmo.
  2. Gostar do que faz; estar de bem com a profissão: Paciente nenhum está disposto a ouvir as queixas de seu médico referente ao seu baixo ganho ou a sua carga de trabalho exagerada. Em estudo do CFM,  86% dos médicos estão satisfeitos com a profissão.
  3. Aliar seu conhecimento científico com uma boa dose de intuição: O médico deve entender o que o paciente lhe conta, uma vez que ao traduzir seus sintomas para palavras estas são mal usadas. A compreensão literal das queixas é, às vezes, enganadora.
  4. Adquirir base sólida de Fisiologia e de Patologia. Quem não entende o mecanismo da fisiopatologia das doenças não tem condições de tratá-las adequadamente.
  5. Ver o paciente de forma holística e bio psico social. Alterações do seu eto ou de seu eco pode levar a doenças, muitas vezes imaginárias.
  6. Trabalhar com senso de equipe, respeitando sempre os colaboradores e principalmente os colegas.  Muitos médicos jovens  ao completarem sua formação, consideram-se semi deuses, tratando com aspereza os colaboradores e com desprezo os colegas. Devem entender que somos apenas uma peça do intrincado sistema de saúde. Sozinhos nada conseguiremos.
  7. Valorizar os princípios éticos acima dos interesses individuais. O médico deve respeitar o paciente, evitar usar palavras chulas e comentários desabonadores aos colegas e aos familiares dos pacientes. Quem respeita será respeitado.
  8. Atuar como poderoso medicamentos.  Pope afirma que as palavras do médico devem ser “palavras que curam” e não devemos transformá-las em “palavras que matem”. Uma boa dose de otimismo faz bem ao médico e ao paciente. O terrorismo médico impressiona no início, mas decepciona o cliente no final.
  9. Conhecer-se a si mesmo, sua potencialidade e sua limitação bem como as da ciência médica. Uma boa história e um bom exame físico dispensam muitos exames complementares, caros, ineficientes e muitas vezes iatrogênicos.
  10. Atuar como médico focado no cliente. Para tal deverá o médico apresentar-se bem, com roupas adequadas, cabelos penteados e  perfumes discretos.

O médico deverá dar atenção ao paciente. O telefone será usado para assuntos médicos e, não para  outros negócios. O computador, será secundário ao paciente  e ao ter de sair da sala solicitar licença ao mesmo.

O médico deverá trazer confiança ao paciente, mostrando-se seguro, mas não arrogante, não tendo medo de solicitar opinião mais abalizada sobre assuntos que não sejam de seu domínio.

Assim procedendo,  penso que seremos capazes de manter e aumentar nossa clientela. No dizer de Albrecht, 1992, “ um paciente satisfeito encaminha 3 outros clientes, enquanto um cliente insatisfeito desencaminha 15".