Overdiagnosis do Transtorno Bipolar

Overdiagnosis do Transtorno Bipolar

Jorge Alberto Salton

Em 1987 Akiskal e Mallya inciaram a divulgação do conceito de Espectro Bipolar.  De forma resumida, pessoas que não apresentavam os critérios vigentes nas classificações das doenças mentais, tanto na da Organização Mundial da Saúde quanto na da American Psychiatric Association, passaram a receber esse diagnóstico por muitos psiquiatras que compraram a idéia. Os critérios de inclusão se tornaram menos rígidos.

Boa parte das doenças mentais passaram a ser consideradas como vinculadas ou até mesmo como variações da doença bipolar. E mais: comportamentos humanos até então não entendidos como devido a doença mental passaram a ser vistos dentro do espectro. Questionários de diagnostico se difundiram inclusive pela internet.

Essa expansão diagnóstica veio acompanhada de uma série de lançamentos da indústria farmacêutica. A população foi atraída para esse campo: a doença passou a ser romantizada e banalizada. Nos Estados Unidos, por exemplo, atores e outras figuras públicas passaram ser apresentados como bipolares e enaltecidos em suas habilidades e capacidades criativas; na verdade, a doença real caminha no sentido oposto. Essa expansão atingiu também a população infantil. Na última década, acredita-se que o diagnostico de bipolaridade na infância aumentou em cerca de quarenta vezes.

O mal do diagnostico indevidamente expandido da doença bipolar é muito grande.  Até hoje só está de fato comprovada a utilidade do tratamento medicamentoso nos quadros bipolares das classificações oficiais. Muitas pessoas podem estar usando medicamentos desnecessariamente, talvez pelo resto de suas vidas. Outro problema é a banalização do diagnóstico psiquiátrico com sua desqualificação e conseqüente descrença na profissão. Quando muitas pessoas distantes do núcleo da doença são colocadas nela, a pesquisa fica dificultada. E a doença é séria, sofrida, tem de ser tratada com todo o cuidado. A recente publicação da V revisão da DSM, a classificação da American Psychiatric Association, oportuniza o debate sobre o tema.  E ele é muito necessário.

Jorge Alberto Salton é médico psiquiatra, professor da faculdade de medicina da UPF.